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UM NÃO-SONETO PARA BILAC

Sibéria de Menezes

Os astros me avisaram
Estrelas cortaram velozes o negrume do céu
Na esperança que eu as pudesse ouvir
Mas há muito não as ouço, Bilac
Há muito tenho deixado descansar meu ouvido de ouvir estrelas
Os astros me avisaram
Que minhas certezas beiravam o abismo
No entanto, de poetas e astros se faz um mundo, não o entendimento
De vaga em vaga, cai meu coração atônito e estúpido
Sem compreender o sentido de tudo o que o cerca
Sem achar os decassílabos que lhe tragam alguma paz.
O céu rompeu em chuvas de meteoros
Perdi de ver Saturno com seus anéis
Não acompanhei a dança dos cometas, por te observar.
Enquanto te contemplava astro-rei, semideus trajado de sol
Caí de uma altura de mil penhascos
Os astros me avisaram
E eles não mentem, jamais
A seiva de sentimentos agoniza sob Júpiter e Netuno
Cavando, sem piedade, um buraco negro
No mais obtuso planeta dos mundos: o coração.

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