IRRETOCÁVEL
Move-se para este lado, logo para o outro, na mesma medida. Era bom estar no centro. Sempre imaginara a vida e a vivera desta forma. Milímetro por milímetro, os quadros bem pousados nas paredes brancas de casa diziam mais do que queriam dizer. O equilíbrio é a única forma de felicidade. O que mais querer e esperar no alto da sua maturidade alcançada às custas de tanta disciplina?
Bem. Rosa gabava-se disto a toda hora. De como a vida era equilibrada. Papai, mamãe, irmãozinhos, cachorrinho, galinhas e quintal. A imagem da infância emoldurada num monte Parnaso. Domingos de roupas bem engomadas, cabelos perfeitos, unhas bem aparadas; criança encaixotada entre o laço no cabelo e o brilho dos sapatos lustrados. Criança que não gripava, sequer transpirava, sempre pronta para dizer “as palavrinhas mágicas”: “Bom dia, boa tarde, boa noite, com licença, por favor, obrigada, blá-blá-blá... blá-blá-blá...”.
No recreio da escola era só. Para não suar, filha, senão desmancha todo o penteado que a mamãe fez com tanto capricho. Não posso me descabelar, se me cair a tiara no chão toda a vida se partirá. Levava a tiara na cabeça como se levasse uma coroa: objeto de poder, glória e prisão. Tudo isso andava longe de incomodar a pequena, a menina mais bem comportada da escola, de todos os tempos. Aquela para quem as outras mães suspiravam: “- Por que Teresa não é assim?”. Rosa pensava que isso a fazia especial, feliz. E assim o era. Jamais sofrera arranhões nos joelhos e cotovelos, nunca caíra em peripécias e astúcias de criança. Vangloriava-se de jamais ter apanhado dos pais e nunca se questionara a este respeito. Meus pais dizem que fui uma criança santa e sou a filha que todos querem ter. Isto é o bastante.
Não podemos dizer o quanto isto transformou a pequena na criatura mais frágil que já se teve notícia. A pureza castiga. Não quando ainda se é puro, mas quando a cortina se descerra e os olhos virgens não agüentam tanta luz. Se alguém jamais sofreu é porque ainda há muita ingenuidade ou dissimulação em si. É preciso sinceridade pra sofrer. Por mais que alguém esteja a erguer todo o tempo cortinas e enfumaçar a vista, algum dia os olhos traem a razão; porque os olhos é quem criam o universo ao redor; e ao nascer, choramos porque dói muito abrir os olhos. Os olhos – janelas da alma e portas da criação.
Sentada em ângulo de 90º, como era o correto, Rosa, no único sofá asséptico do mundo, percebe, diante de si uma leve inclinação no quadro da parede. Imperceptível para os olhos mais felizes. Mas transtornador para ela. Ela que não admitia faltas, atrasos, desalinhos. Não fosse tão estranho, andaria com um prumo na bolsa. Cambaleante, saltou do sofá como se disso dependesse o mundo inteiro. E dependia – o seu mundo dependia dessa harmonia. Precisava de ordem e simetria, como um viciado precisa do seu alucinógeno. Nem eu mesmo sabia, mas Rosa guardava realmente um prumo. Não na bolsa, mas escondido entre as ferramentas da área de serviço. Para alguma emergência, vai saber! A perfeição é frágil. E podia acontecer de, um dia, sua casa revoltar-se contra tudo ao que se subjugava: à brancura, à simetria, ao aço inoxidável da cozinha, à mórbida higiene de Rosa.
Cadê o prumo? Não é possível que o pesadelo se instalasse assim. Toda a vida de Rosa suspirava, clamava e esperava pelo desalinho. Rosa era carregada de tanta certeza, tão penteadinha, sem jamais tirar a tiara, que a ela, não podia suceder outra coisa senão desatinar. Rosa desatinou.
E arrastou os joelhos no chão com categoria; procurava não só o prumo, procurava respostas. Não se deixa de questionar por medo ou covardia, mas pela falta da catarse, que chegava a Rosa pelos joelhos: feridos pela primeira vez na vida. Como era possível joelhos que tivessem a pele tão fina quanto as palmas das mãos?
O prumo... o prumo... onde está a porra daquele maldito prumo? A alma humana às vezes precisa do desespero para emergir, e repentinamente, as palavras mais inesperadas manifestam-se como se estivessem a vida toda a esperar aquela expansão. Como não disse esse mesmo palavrão quando três pessoas tomaram minha vaga naquela fila, uma atrás da outra? Três chances eu tive. Três. O número mágico, o número da revelação. Porra! Eu devia ter dito as mais altas injúrias, ou as mais baixas, talvez. Mas preferi ceder. Aliás, não tive a chance de preferir, pois não tive outra idéia a não ser ficar no meu lugar e não me rebaixar a isto. Não se rebaixe. Queria ter tido vontade de aviltar-me e ir ao mais baixo degrau da existência. Mas não, eu era daquele jeito. Sem obrigação alguma com a felicidade. Sequer soube que precisava daquela vaga mais do que ninguém! Rosa esperava mesmo era a misericórdia alheia, era que todos vissem o quanto era boa e o quanto merecia um cavaleiro de armadura brilhante montado num cavalo branco que atirasse fora aqueles bárbaros que ousavam desagradar tão pura donzela. Quem se importa? Não era isso que eu esperava. Se já bem entendo, Rosa quer me dizer que nem mesmo sentiu aquelas três pessoas furarem a fila sem a menor cerimônia. Como bradar palavrões faziam bem a Rosa naquele instante, ainda que quase tarde!
Mas cadê o prumo, aquele desgraçado? E personificava tanto o objeto que parecia estar chamado por alguém, talvez o marido que ainda não voltou da farra. Se o guardei era pra estar aqui! E tudo era novo em Rosa, como eram também novas as suas palavras. A solidão, sua garantia de que de modo algum partilharia suas coisas com ninguém, agora lhe parecia maior ainda. E pela primeira vez, sem sentido. A quem poderia responsabilizar pelo quadro torto e pelo sumiço do prumo que tenho certeza, guardei aqui? Rosa era eternamente algoz das suas companhias, não tinha cúmplice, ou companheiro, queria alguém a quem pudesse culpar caso algo desse errado.
Consternada, Rosa chorou uma noite inteira, sem o intervalo que separa uma hora da outra. Engana-se quem pensar que era pelo prumo, ou pelo quadro, ou, para quem se lembra, pelos joelhos marcados. Chorou porque abriu os olhos, pela segunda vez. De que lhe adiantava tantas horas certas em lugares incertos? Que proveito havia falar sempre a verdade e concordar tanto? Se, na capa de si, nem sabia com o quê? Por que segurar esse choro por todo esse tempo? E para quem havia guardado joelhos imaculados?
Jogou a tiara no chão. Caiu no sono.
Decepcionei-me imensamente com Rosa.
Tal qual na infância, acordou-se no dia seguinte, com o mesmíssimo ritual. O cinismo consigo mesma. Era a desfaçatez em pessoa, afinal, ninguém precisava saber o que sucedeu na noite passada. Mas que demais aconteceu? Ao que me consta, uma leve embriaguez. Secou as lágrimas, calçou os pés, rumou ao banheiro, tomou banho. Pegou no armário a roupa do dia, secou-se. Maquiou-se a fim de disfarçar a infelicidade. E como ela era ela! Como uma promessa, jamais deixaria de sê-lo. Vestiu-se. Foi à parede, tirou o quadro, já que ajustá-lo era impossível. Diante da parede nua, Rosa, vestida como uma verdadeira dama de ferro, não teve dúvida: encaixou-se de novo na forma da segurança – irretocável – entre a tiara dourada e os sapatos de verniz.
Sentada em ângulo de 90º, como era o correto, Rosa, no único sofá asséptico do mundo, percebe, diante de si uma leve inclinação no quadro da parede. Imperceptível para os olhos mais felizes. Mas transtornador para ela. Ela que não admitia faltas, atrasos, desalinhos. Não fosse tão estranho, andaria com um prumo na bolsa. Cambaleante, saltou do sofá como se disso dependesse o mundo inteiro. E dependia – o seu mundo dependia dessa harmonia. Precisava de ordem e simetria, como um viciado precisa do seu alucinógeno. Nem eu mesmo sabia, mas Rosa guardava realmente um prumo. Não na bolsa, mas escondido entre as ferramentas da área de serviço. Para alguma emergência, vai saber! A perfeição é frágil. E podia acontecer de, um dia, sua casa revoltar-se contra tudo ao que se subjugava: à brancura, à simetria, ao aço inoxidável da cozinha, à mórbida higiene de Rosa.
Cadê o prumo? Não é possível que o pesadelo se instalasse assim. Toda a vida de Rosa suspirava, clamava e esperava pelo desalinho. Rosa era carregada de tanta certeza, tão penteadinha, sem jamais tirar a tiara, que a ela, não podia suceder outra coisa senão desatinar. Rosa desatinou.
E arrastou os joelhos no chão com categoria; procurava não só o prumo, procurava respostas. Não se deixa de questionar por medo ou covardia, mas pela falta da catarse, que chegava a Rosa pelos joelhos: feridos pela primeira vez na vida. Como era possível joelhos que tivessem a pele tão fina quanto as palmas das mãos?
O prumo... o prumo... onde está a porra daquele maldito prumo? A alma humana às vezes precisa do desespero para emergir, e repentinamente, as palavras mais inesperadas manifestam-se como se estivessem a vida toda a esperar aquela expansão. Como não disse esse mesmo palavrão quando três pessoas tomaram minha vaga naquela fila, uma atrás da outra? Três chances eu tive. Três. O número mágico, o número da revelação. Porra! Eu devia ter dito as mais altas injúrias, ou as mais baixas, talvez. Mas preferi ceder. Aliás, não tive a chance de preferir, pois não tive outra idéia a não ser ficar no meu lugar e não me rebaixar a isto. Não se rebaixe. Queria ter tido vontade de aviltar-me e ir ao mais baixo degrau da existência. Mas não, eu era daquele jeito. Sem obrigação alguma com a felicidade. Sequer soube que precisava daquela vaga mais do que ninguém! Rosa esperava mesmo era a misericórdia alheia, era que todos vissem o quanto era boa e o quanto merecia um cavaleiro de armadura brilhante montado num cavalo branco que atirasse fora aqueles bárbaros que ousavam desagradar tão pura donzela. Quem se importa? Não era isso que eu esperava. Se já bem entendo, Rosa quer me dizer que nem mesmo sentiu aquelas três pessoas furarem a fila sem a menor cerimônia. Como bradar palavrões faziam bem a Rosa naquele instante, ainda que quase tarde!
Mas cadê o prumo, aquele desgraçado? E personificava tanto o objeto que parecia estar chamado por alguém, talvez o marido que ainda não voltou da farra. Se o guardei era pra estar aqui! E tudo era novo em Rosa, como eram também novas as suas palavras. A solidão, sua garantia de que de modo algum partilharia suas coisas com ninguém, agora lhe parecia maior ainda. E pela primeira vez, sem sentido. A quem poderia responsabilizar pelo quadro torto e pelo sumiço do prumo que tenho certeza, guardei aqui? Rosa era eternamente algoz das suas companhias, não tinha cúmplice, ou companheiro, queria alguém a quem pudesse culpar caso algo desse errado.
Consternada, Rosa chorou uma noite inteira, sem o intervalo que separa uma hora da outra. Engana-se quem pensar que era pelo prumo, ou pelo quadro, ou, para quem se lembra, pelos joelhos marcados. Chorou porque abriu os olhos, pela segunda vez. De que lhe adiantava tantas horas certas em lugares incertos? Que proveito havia falar sempre a verdade e concordar tanto? Se, na capa de si, nem sabia com o quê? Por que segurar esse choro por todo esse tempo? E para quem havia guardado joelhos imaculados?
Jogou a tiara no chão. Caiu no sono.
Decepcionei-me imensamente com Rosa.
Tal qual na infância, acordou-se no dia seguinte, com o mesmíssimo ritual. O cinismo consigo mesma. Era a desfaçatez em pessoa, afinal, ninguém precisava saber o que sucedeu na noite passada. Mas que demais aconteceu? Ao que me consta, uma leve embriaguez. Secou as lágrimas, calçou os pés, rumou ao banheiro, tomou banho. Pegou no armário a roupa do dia, secou-se. Maquiou-se a fim de disfarçar a infelicidade. E como ela era ela! Como uma promessa, jamais deixaria de sê-lo. Vestiu-se. Foi à parede, tirou o quadro, já que ajustá-lo era impossível. Diante da parede nua, Rosa, vestida como uma verdadeira dama de ferro, não teve dúvida: encaixou-se de novo na forma da segurança – irretocável – entre a tiara dourada e os sapatos de verniz.
Sibéria de Menezes Carvalho
...Show, querida Kmarada: "A pureza castiga. Não quando ainda se é puro, mas quando a cortina se descerra e os olhos virgens não agüentam tanta luz." ...em uma palavra....'Show' !!!
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