Pular para o conteúdo principal

Telefone fixo?

(ou pra quem se lembra de fichas telefônicas)

Há alguns anos o telefone fixo era um bem. Declarado, inclusive, no imposto de renda. Parece engraçado, mas não ria, se você não é desse tempo. Pois bem, havia um glamour em torno do telefone, que era um barato! Toda criança tinha que ter (ainda que na sua casa não houvesse telefone) a sua fotinho, em torno dos oito aos dez anos, a segurar o aparelho, com a perna cruzada, cheia de charme, geralmente sentada num móvel desenhado especialmente para manter o pomposo telefone. A fotografia merece um texto só prá ela depois...
Ter um telefone em casa era uma coisa para se gabar. Ainda não havia sequer a febre de orelhões pela cidade. Se você quisesse telefonar pra alguém teria de ir a um posto telefônico (gerenciado pela prefeitura, eu acho) e pedir para a telefonista efetuar a chamada. Claro que eu pertencia a este grupo – daqueles que não tinham telefone em casa. Mas telefonar não era uma coisa tão habitual como o é hoje em dia (meu Deus, não acredito que estou usando esta expressão!!!). Não se ligava pra alguém só pra dizer um “olá, estou pensando em você!”, ou qualquer coisa do tipo, e acaso se ligasse para alguém, algum parente distante, era uma eventualidade, coisa semestral quase, e toda a família era convidada a participar do acontecimento. Telefonar era caro! Mais do que hoje, acredite! Mas dada a raridade da coisa, era uma delícia! Quase se vestia roupa de domingo para ir ao posto telefônico...
Ah! Antes que eu esqueça – também se esperava ligações no posto telefônico. Eu mesma, eu mesminha, já esperei por elas, junto da minha família, é claro, pois “criança não tem nada que estar telefonando pra ninguém”.
As fichas telefônicas eram uma graça... como a gente conseguia falar e ao mesmo tempo monitorar quando colocar outra ficha no orelhão? E como conseguia andar de lá pra cá com aquela quantidade de fichas, porque pesavam um pouco, viu?
Não sei se sinto falta desse sistema todo, ou da minha infância, acho que uso qualquer coisa pra lembrar da segunda... Na verdade, não existe mais glamour no telefone porque virou um objeto descartável. Ainda quando chegaram os modernos cartões telefônicos era uma graça, a gente os colecionava, tinha álbuns pra isso na papelaria; existia uma rede de amizades em torno das coleções de cartões. O que podemos colecionar hoje? Aquele papel amarelo e sem graça onde está uma senha pra colocar crédito no celular?
Mais impessoal impossível, você fala com um robô pra instalar a tal da senha e dos créditos. Não existe mais aquela pessoa da bodega, bonachona, que parece a pessoa mais mal humorada do mundo a vender fichas e cartões; e não tem o que colar como lembrança na agenda o cartão daquela ligação importantíssima da adolescência. Será que os adolescentes hoje escrevem diários? (queira Deus que sim)
Que saudosismo mais piegas! Mas é o jeito, é o que sinto. E talvez sinta tanto que não consigo me livrar do meu telefone fixo. Existe mais de um celular (ou número) por pessoa no Brasil (e no mundo), o que nos desobriga quase totalmente do uso do telefone fixo, mas ele continua forte (tá, nem tão forte assim), como uma referência nossa de uma condição de não-nômade, de alguém que tem um endereço no mundo, como um ponto que nos liga a um lugar nos tempos em que somos tão portáteis. Queremos portabilidade, mas jamais podemos negar nosso instinto de caverna.
Sempre volto à palavra paradoxo, mas é irresistível deixar de observar que, mesmo dispondo de banda larga, de satélites, de internet... o contato entre as pessoas tende ao esfriamento. Veja bem, de tão fáceis, as coisas ficam sem graça. É tão fácil ligar, passar um e-mail, falar no skype (coisa só possível no desenho animado dos Jetsons), que o outro, o motivo do meu contato, de repente fica acessível demais que não temos tempo de ficar com saudade um do outro. Não é que não nos falemos, é que nos falamos demais. E as palavras têm um tempo de maturação, como o vinho. E é bom já ir encerrando o palavratório antes que nos aproximemos demais. E eu preciso de tempo pra ter saudade.

Comentários

  1. Desgraçado foi Graham Bell...! Inventou o telefone e não tinha para quem ligar...!
    GK

    ResponderExcluir
  2. Tantas verdades ditas de uma forma tão graciosa!Só você mesmo pra realizar tal proeza.Parabéns.

    ResponderExcluir

Postar um comentário

Postagens mais visitadas deste blog

LIVRANDO-SE DE CALCINHAS-UM-POUCO-VELHAS

LIVRANDO-SE DE CALCINHAS “UM POUCO VELHAS”

“Sujo atrás da orelha,
Bigode de groselha,
Calcinha um pouco velha
Ela não tem” (Chico Buarque/Edu Lobo. Ciranda da Bailarina)

A partir desses versinhos, lindamente interpretados por Adriana Partimpim (heterônimo da Adriana Calcanhoto para crianças), surgiu, numa roda de meninas-não-bailarinas, onde, felizmente, eu estava, um assunto que me chamou atenção. “Isto merece um texto!”. Ei-lo! A pergunta é a seguinte: o que fazer com calcinhas velhas? Daquelas mesmo que estás pensando nessa sua cabecinha, aquelas... que todas nós tivemos, temos e teremos, em algum momento da vida – se Deus quiser! Calcinhas um pouco velhas sempre estarão nas nossas gavetas. E como teremos rituais e alguma dificuldade para jogá-las fora!
Conversa vai, conversa vem... fui ouvindo depoimentos tão curiosos que me arrepiei ao pensar no quanto estávamos desfrutando de tamanha intimidade naquele momento. Eu também tive a minha hora de confessar o que costumava fazer com as c…

A DOR DO OUTRO

Por Sibéria de Menezes
É comum afirmar que a grama do vizinho é sempre mais verde. Aí o outro é paragem e delícia. Mas há um outro. Outro que ignoramos, outro a quem queremos ainda mais mal. O outro por quem não nos compadecemos. Por quem não exercemos compaixão: aquele que sofre. Aquele que carrega uma dor. Porque a dor do outro não é desejada como é a grama do outro. Porque a dor é um substantivo abstrato. Porque precisamos sentir para saber dimensionar a dor.
Para quem já sentiu uma dor, qualquer delas, talvez seja um pouco mais fácil colocar-se no lugar do outro. Há, porém, o esquecimento da dor. Há quem mesmo tendo passado por experiência semelhante a do outro, ainda o julgue, ainda ridicularize a dor pela qual o outro passa.
(Com)paixão, capacidade de sofrer a dor do outro, dimensionar a dor do outro, entender que o outro precisa de suporte. É mais que o ato de (com)padecer-se do outro, porque a compaixão deve ir além do lamento e da contemplação da dor alheia.
Cristo pregou em todo…