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"Postagenzinha qualquer"

“Eta, vida besta, meu Deus!” Um poeminha pensando em Drummond Mão-de-obra Pé-de-valsa João-sem-braço Maria-vai-com-as-outras João-ninguém Samba-do-crioulo-doido Corpo-mole Minha vida hifenada a tua Minha vida substantivada Ali vai Raimundo que amava ninguém Raimundo que faz corpo-mole                 Quando vê a hora de dançar o samba-do-crioulo-doido Raimundo João-ninguém que é só mão-de-obra rasa Raimundo, dançarino pé-de-valsa que vai com a Maria-vai-com-as-outras Vai, Raimundo, ser gauche na vida Vai ser tudo, Raimundo Vai ser rima, vai sem rumo Vai amar Teresa nenhuma Lá vai Raimundo, sem ser rima, nem solução. Lá vai Raimundo Lá vai Drummond Lá vou eu, sem rima no coração. Sibéria de Menezes

MÃE-OUVIDO

Sibéria de Menezes Com suas vozes de criança, as minhas crianças, falam muitas vezes ao dia “mamãe”, pra quase tudo: “mamãe”. Como se me dissessem: “Estou aqui.” Eu ouço mais os meus filhos do que os vejo, de maneira que eu os percebo primeiro pelos ouvidos. Sou uma mãe-ouvido desde que os ouvi pela primeira vez. Eles dizem “mamãe” e imediatamente eu compreendo o sentido da minha vida, o maior deles. “Mamãe”, e eu dou graças por poder ouvi-los e estar junto deles para vivermos um amor ouvido e falado. O modo como eles me afirmam como mãe, ao pronunciar esta palavra-mágica, dá-me a certeza da maternidade, no meio de tantos questionamentos que me faço como mãe. Quando me dizem mãe, a cada vez, me fazem mãe novamente. Na verdade, eles invocam a minha parte-mãe, o que me leva a quase compreender o todo-eu. Com suas vozes de criança e tudo o que neles há de criança renovam minha vida, participam-me de uma nova existência, de uma vida que se (re)constrói a cada instante no segredo das...

QUANTO VALE A PAZ?

Um grito para dentro vale a paz? Sua guerra vale a minha paz? Dou um choro calado, velado, contido por um punhado de paz. Minha agonia pela paz. Um “por que me abandonaste?” pela paz. De que vale a minha paz se há em mim a guerra, a dor e o sangue a ferver em cólera? Troco minha guerra pela sua paz? Dê-me a paz, não promessas, nem mentiras. Minha angústia por um quilate de paz. Meu riso para plantar a paz, de que me vale? Alguém me dê a paz ou me venda ou troque numa poesia,             que é o que tenho e posso trocar, ou dar, ou vender. Vamos negociar? Uma poesia por um pouco de paz. Mas... de que vale a poesia? Umas palavras tolas por um naco de paz. Num dia possível, quem me ouve, me dê a paz de dias possíveis e belos! Troco meu nome de poeta pela paz. (Sibéria de Menezes)

MILLÔRIANAS

Verdades sobre a minha poesia Minha poesia está escrita em versos Em português brasileiro contemporâneo. Meus versos são brancos porque não sei rimar. Não sou poeta Mas sou alegre e triste. Minha poesia não é sobre a verdade Alguns de meus versos me levantaram no meio da madrugada, só pra me mostrar quem é que manda. Não conto as sílabas poéticas porque não sei contar, Mas faço cada uma delas, não sei por que e nem como. Não faço poesia em papel pautado, Nem para matar o tempo que às vezes me sobra. Não faço poesia, ela que me faz e às vezes me refaz, outras, desfaz, mas, geralmente, me compõe. Contrariando Drummond, e embora o adore, faço poesia sobre acontecimentos. Não domino rimas ou canções, mas pela poesia eu me entendo. Toda a minha poesia sai de onde está e me leva aonde nunca estive. Sibéria de Menezes Carvalho

SARTREANDO

Eu sou eu e minhas incoerências Carne, osso, gordura, neurônios e nervos Pele, olhos, unhas e pelos Eu sou eu mais os meus medos e coragens Carreira e lentidão Curvas e linhas retas Eu sou eu mais aquilo que não me diz Eu metáfora Eu hipérbole Eu paradoxo Eu sou eu mais meu riso e choro E minhas roupas que me cabem e as que não me cabem mais Sou eu e meus rompantes de heroísmo e covardia Eu sou eu e minhas ilusões Pálio de estrelas e buracos negros Sozinha e em multidão Eu sou eu mais o chão que me sustenta e o céu de gravidade Vagando por noites e noites A procurar por mim A procurar por outros Eu sou eu mais minhas palavras Sibéria de Menezes

BALADA PARA NÃO AMAR

BALADA PARA NÃO AMAR (Sibéria de Menezes)  Não me chame para ver um filme que já vi Nem para ver uma chuva que não vai passar Não me chame para os tintos ou brancos Não me chame para degustações dionisíacas Não me chame para ver a lua e seu efeito sobre as marés Não me chame para noites de tormenta e amor até o raiar do dia Não me chame para mãos e bocas, pernas e pés Não me chame para o dois pra lá, dois prá cá Nem para deitar-me contigo à beira do rio Não me chame para chocolates, flores, champanhe e massas finas Nem para baladas e odes ou sonetos Não me chame para ver a escola passar na avenida Não me chame ao recital ou ao barzinho da moda Não me leve ao altar nem à fossa Não me faça ouvir os acordes de querubins nem ouça Nina Simone Não me peça para ir nem para ficar Não me dê importância nem suspiros nem saudades Não me dê miragens nem desertos nem motivos para pensar em ti Não me chame para rir das besteiras dessa vida Nem para ch...

Narciso em águas alheias

Eu trago em mim um Narciso ao contrário.  Pesa sobre meus ombros como um fardo grego. O meu Narciso ao contrário afoga-se nas águas da beleza do próximo. Tudo o que é belo, bom e adorável, meu Narciso só encontra no outro. Meu Narciso não tem espelho, não se olha, não se venera. O pronome do meu Narciso está na terceira pessoa ou na segunda. Sou um Narciso de águas alheias. Quero o outro Narciso, aquele que me dê tanta paixão por mim mesma, pela qual eu seja capaz de morrer em águas de amor próprio... Quero outro Narciso, o verdadeiro, não este que gasta a vida pela janela do outro. Espelho, espelho que não é meu, dá-me a graça de olhar para mim e ser eu.