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DIA DE BANCO

Quando for a uma agência bancária, blinde-se. Vá de corpo fechado. A blindagem fica mais por conta do ambiente, do que pela falta de segurança. Explico: nas filas você ficará sujeito a toda sorte de queixas, caras feias, empurra-empurra... as pessoas faltam rosnar e lhe morder as pernas. “Ei, por que ela passa na frente?”. “É atendimento prioritário”. “Hoje só tem prioritário! Que saco!” deixam escapar. “Eu tenho o que fazer – eu trabalho!”. O direito dos outros que se dane! É assim, barbárie mesmo, num ambiente supostamente civilizado e totalmente asséptico, as pessoas esquecem os limites entre elas e os outros. Noutras palavras, o nível de energia é tão negativo que você sente-se esgotado. As pessoas temem tudo: ser assaltadas, ultrapassadas, enganadas, estão com o desconfiômetro quase estourando. Em resumo: é um minitrânsito – só faltam as buzinas, pois que há atropelamentos e avanços de sinais. Nossa! Tome um banho de sal grosso ao sair de lá. Melhor, tome um antes e outro depois. ...

GALOS MODERNOS

Liquidificadores Buzinas Vozes Gritos Pés Motores Portões Manchetes No solo No ar Um nível além de tudo Barulho Galos? Conhecem galos? Talvez nas mesas Super modificados De vitaminas, hormônios Galo-bomba Galos cantores Não há mais espaço para galos que cantem as manhãs nossas de cada dia Temos fome de cantiga de galo Galos que nos acordem da monotonia dos dias Precisa-se de galos: vivos e cantores

Chorar

VOCÊ SE LEMBRA DA ÚLTIMA VEZ QUE CHOROU? Sibéria A adolescência é o fim da inocência e o começo de todas as vergonhas. Amizade adolescente é uma das mais intensas. Tudo é mais intenso. Você, por um lado, foge da pagação de mico de andar com os pais, mas paga o maior king Kong chorando por uma amizade que já não é mais a mesma. Aquela amiga ou aquele amigo não estão mais falando com você a toda hora. Isso dói muito e parece que nunca mais vai passar. Você chora, manda recados por colegas, faz greve de fome, cartinhas... e nada parece trazê-lo(la) de volta, demovê-lo(la) da ideia de não ser mais seu amigo(a). É assim, hoje me lembrei disso. Com o passar dos anos, vamos sendo tomados por um cinismo tão cru e tão forte, que até parece que nascemos assim. Não choramos mais por causa dos amigos que resolvem não mais sê-lo. E, se fazemos isso, mesmo na escuridão do quarto, morremos de vergonha. Na sentença “sou mais eu”, o paradoxo de saber, que naquele tempo, onde o eu não encontrava nenhum ...

Uma Palavra Chico Buarque

Palavra prima Uma palavra só, a crua palavra Que quer dizer Tudo Anterior ao entendimento, palavra Palavra viva Palavra com temperatura, palavra Que se produz Muda Feita de luz mais que de vento, palavra Palavra dócil Palavra d'agua pra qualquer moldura Que se acomoda em balde, em verso, em mágoa Qualquer feição de se manter palavra Palavra minha Matéria, minha criatura, palavra Que me conduz Mudo E que me escreve desatento, palavra Talvez à noite Quase-palavra que um de nós murmura Que ela mistura as letras que eu invento Outras pronúncias do prazer, palavra Palavra boa Não de fazer literatura, palavra Mas de habitar Fundo O coração do pensamento, palavra

"José, para onde?"

Num momento ponho todas as flechas apontadas num só ponto. Noutro, jogo todas elas no chão e vou embora. Estou surdo e sei que não valiam nada. Acordo. Estou a procurar flechas no chão, nos ares... me desespero em saber que podem ser de alguém, não minhas. Crio novas. Desenho, moldo, e tento esculpi-las como se a mim mesma estivesse fazendo. De novo. Flechas nas mãos e na alma toda. Onde é o alvo agora? Não existe alvo, mas alvos, e tudo é confusão como noutro dia, como no começo de tudo: branco ou preto? Fútil ou útil? Grandeza ou pequenez? Não lido bem com perguntas tão diretas. Não lido bem com direção. Qual direção das flechas? Fecho os olhos, disparo-as no ar e não consigo mais abrir os olhos para saber onde estão. Para onde foram novamente? Atiro flechas ao ar, não a alvos. E o vento, senhor das direções, joga-as aonde quer, penteia os cabelos meus e dos coqueiros e joga palavras ao além, junto às flechas que lancei. Apanho-as do chão. Estão mortas. Não querem ir a lugar algum on...