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Chorar

VOCÊ SE LEMBRA DA ÚLTIMA VEZ QUE CHOROU? Sibéria A adolescência é o fim da inocência e o começo de todas as vergonhas. Amizade adolescente é uma das mais intensas. Tudo é mais intenso. Você, por um lado, foge da pagação de mico de andar com os pais, mas paga o maior king Kong chorando por uma amizade que já não é mais a mesma. Aquela amiga ou aquele amigo não estão mais falando com você a toda hora. Isso dói muito e parece que nunca mais vai passar. Você chora, manda recados por colegas, faz greve de fome, cartinhas... e nada parece trazê-lo(la) de volta, demovê-lo(la) da ideia de não ser mais seu amigo(a). É assim, hoje me lembrei disso. Com o passar dos anos, vamos sendo tomados por um cinismo tão cru e tão forte, que até parece que nascemos assim. Não choramos mais por causa dos amigos que resolvem não mais sê-lo. E, se fazemos isso, mesmo na escuridão do quarto, morremos de vergonha. Na sentença “sou mais eu”, o paradoxo de saber, que naquele tempo, onde o eu não encontrava nenhum ...

Uma Palavra Chico Buarque

Palavra prima Uma palavra só, a crua palavra Que quer dizer Tudo Anterior ao entendimento, palavra Palavra viva Palavra com temperatura, palavra Que se produz Muda Feita de luz mais que de vento, palavra Palavra dócil Palavra d'agua pra qualquer moldura Que se acomoda em balde, em verso, em mágoa Qualquer feição de se manter palavra Palavra minha Matéria, minha criatura, palavra Que me conduz Mudo E que me escreve desatento, palavra Talvez à noite Quase-palavra que um de nós murmura Que ela mistura as letras que eu invento Outras pronúncias do prazer, palavra Palavra boa Não de fazer literatura, palavra Mas de habitar Fundo O coração do pensamento, palavra

"José, para onde?"

Num momento ponho todas as flechas apontadas num só ponto. Noutro, jogo todas elas no chão e vou embora. Estou surdo e sei que não valiam nada. Acordo. Estou a procurar flechas no chão, nos ares... me desespero em saber que podem ser de alguém, não minhas. Crio novas. Desenho, moldo, e tento esculpi-las como se a mim mesma estivesse fazendo. De novo. Flechas nas mãos e na alma toda. Onde é o alvo agora? Não existe alvo, mas alvos, e tudo é confusão como noutro dia, como no começo de tudo: branco ou preto? Fútil ou útil? Grandeza ou pequenez? Não lido bem com perguntas tão diretas. Não lido bem com direção. Qual direção das flechas? Fecho os olhos, disparo-as no ar e não consigo mais abrir os olhos para saber onde estão. Para onde foram novamente? Atiro flechas ao ar, não a alvos. E o vento, senhor das direções, joga-as aonde quer, penteia os cabelos meus e dos coqueiros e joga palavras ao além, junto às flechas que lancei. Apanho-as do chão. Estão mortas. Não querem ir a lugar algum on...

Sem título

Por: Sibéria Meias arrastão pra te impressionar Lábios de carmim para te beijar Risos de champanhe para te humilhar A moça não quer ser moça Quer ser lady Nas madeixas tenho a força Para o que quiser Agora me deixa Que quero sofrer Para a poesia poder existir Não posso ser moça, Nem branca, nem pálida, nem de neve Quero a dor Só com ela se conhece o que é amor Amor não é o que está nos folhetins Amor está mesmo é naquele jeans Que uso apertado prá te sufocar Amor está mesmo nos sapatos altos prá te alcançar Amor está, verdadeiro está, nas lágrimas que amargas hão de rolar Quando me disseres, como os outros, Que já não vai dar, meu amor Não vai dar valsa, Vai dar uma música qualquer Que pelo sofrimento vai me afirmar como uma mulher.

Falha folha branca

Sibéria O poeta sofre A folha em branco Como se branca Fosse a vida Toda Escreve datas Garranchos Seu próprio nome E vai Desenhando a folha No exercício confuso Da beleza de ser Poeta Uma palavra: E basta, Para que tudo Ache sentido e forma e cor Mas não qualquer palavra Ou mesmo qualquer uma, só que agora: Ventilador, fósforo, janelas... Desde que se abram Todos os sentidos. A folha branca A cara branca A roupa branca Esperam a palavra Que vá manchar-lhes a Tediosa brancura O poeta sofre com a brancura das coisas.